Você já tratou uma dor, sentiu melhora e, algum tempo depois, percebeu que ela voltou?
Essa é uma situação bastante comum. Muitas pessoas procuram atendimento quando a dor aparece, fazem algum tratamento, melhoram e retomam suas atividades. Porém, quando a dor retorna, surge a sensação de que “o problema voltou”.
Mas será que ele realmente desapareceu?
Em muitos casos, a dor pode estar relacionada a diferentes fatores, como alterações de movimento, sobrecarga, falta de mobilidade, fraqueza muscular, hábitos repetitivos ou compensações que não foram identificadas e trabalhadas adequadamente.
Por isso, entender por que a dor está acontecendo é tão importante quanto aliviar o sintoma.
A dor nem sempre está relacionada apenas ao local onde dói
Um dos principais erros ao lidar com uma dor recorrente é considerar que o local dolorido é necessariamente o único local que precisa ser tratado.
O corpo funciona de maneira integrada. Quando uma articulação apresenta alguma limitação de movimento, quando determinados músculos não conseguem desempenhar adequadamente sua função ou quando existe uma alteração na forma como um movimento é realizado, outras regiões podem assumir uma carga maior.
Isso pode gerar compensações.
Por exemplo, uma limitação de mobilidade em uma região pode fazer com que outra se movimente mais para compensar. Dependendo da atividade e da frequência com que isso acontece, essa sobrecarga pode contribuir para o surgimento ou manutenção de sintomas.
Isso não significa que toda dor em uma região tenha origem em outra. Significa que o contexto em que aquela dor aparece precisa ser investigado.
Por que as compensações podem fazer a dor voltar?
Imagine que você sinta dor no ombro durante determinados movimentos.
Se o tratamento estiver focado somente em diminuir a dor, pode haver uma melhora dos sintomas. Porém, se fatores que contribuem para aquela sobrecarga continuarem presentes, o problema pode reaparecer quando você retornar às mesmas atividades.
É por isso que uma avaliação fisioterapêutica não deve se limitar ao ponto doloroso.
É importante observar:
- Como a pessoa se movimenta;
- Quais movimentos estão limitados;
- Como as articulações se comportam;
- Se existe alteração de força ou controle motor;
- Quais regiões estão sendo mais sobrecarregadas;
- Quais atividades desencadeiam ou aumentam os sintomas;
- Como é a rotina e a demanda física daquela pessoa.
A partir dessas informações, é possível construir uma visão mais ampla do problema.
Aliviar a dor é importante, mas pode não ser suficiente
Reduzir a dor faz parte do tratamento. Afinal, uma pessoa com dor pode apresentar limitações para trabalhar, treinar, dormir ou realizar atividades simples do dia a dia.
O ponto é que o alívio do sintoma não deve necessariamente ser o único objetivo.
Imagine uma pessoa que sente dor lombar sempre depois de correr. Fazer um tratamento para diminuir a dor pode ser importante, mas também é necessário compreender o que acontece durante a corrida, como está a capacidade física dessa pessoa, qual é a carga de treinamento e se existem fatores relacionados ao movimento ou à recuperação que podem estar contribuindo para os sintomas.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a dores no pescoço, ombro, joelho, quadril e outras regiões.
A dor é uma informação. O papel da avaliação é entender essa informação dentro do contexto de cada pessoa.
O corpo cria compensações?
Sim, o corpo possui capacidade de adaptação e pode modificar a maneira como realiza determinados movimentos diante de limitações, dor, alterações de força, mobilidade ou demanda.
Porém, é importante não interpretar toda compensação como algo necessariamente ruim.
As compensações fazem parte da capacidade do organismo de se adaptar. O problema pode surgir quando determinada estratégia de movimento é utilizada repetidamente, quando a demanda ultrapassa a capacidade de adaptação ou quando existe uma combinação de fatores que mantém a sobrecarga.
Por isso, não existe uma postura ou movimento universalmente “errado” que explique todas as dores.
É preciso avaliar a pessoa, sua rotina, suas atividades e a forma como os sintomas se comportam.
Uma avaliação individualizada pode mudar o tratamento
Duas pessoas podem apresentar dor no mesmo local e, ainda assim, ter fatores completamente diferentes relacionados aos seus sintomas.
Uma pessoa com dor no joelho pode apresentar uma alteração relacionada à carga de treinamento. Outra pode ter dificuldade de controle durante determinados movimentos. Uma terceira pode apresentar uma combinação de fatores envolvendo mobilidade, força, recuperação e rotina.
Por isso, o tratamento não deveria ser baseado apenas no diagnóstico ou no local da dor. A avaliação individualizada permite identificar quais fatores estão presentes naquele caso e quais deles são relevantes para o tratamento.
A partir disso, a fisioterapia pode utilizar diferentes estratégias, como exercícios terapêuticos, terapia manual, educação em dor, treinamento de movimento e outras técnicas, de acordo com as necessidades de cada paciente.
E quando a dor volta?
Quando uma dor retorna, isso não significa automaticamente que o tratamento anterior “não funcionou”.
É necessário entender o contexto. A pessoa voltou para uma atividade com uma demanda maior? Houve aumento de carga de treinamento? Algum fator que contribuía para os sintomas permaneceu? O corpo estava preparado para aquela demanda? O tratamento foi interrompido assim que a dor melhorou?
Essas perguntas ajudam a compreender o que pode estar acontecendo. Em alguns casos, a dor pode retornar mesmo depois de um tratamento adequado. O organismo não funciona como uma máquina em que existe uma única peça responsável por cada sintoma.
O objetivo é identificar os fatores modificáveis e trabalhar para aumentar a capacidade do corpo de lidar com as demandas às quais ele é submetido.
Não trate apenas onde dói
Quando uma dor é recorrente, talvez seja o momento de olhar além do sintoma.
Isso não significa ignorar a região dolorida. Pelo contrário: ela deve ser avaliada. Mas também é importante entender o que está acontecendo ao redor dela e quais fatores podem estar contribuindo para a persistência ou recorrência dos sintomas.
Tratar a dor é importante. Entender o contexto em que ela aparece é essencial para direcionar melhor o tratamento.
Se você sente a mesma dor repetidamente, uma avaliação fisioterapêutica individualizada pode ajudar a identificar alterações de movimento, sobrecargas e outros fatores que podem estar relacionados aos seus sintomas.
Afinal, o objetivo da fisioterapia não é simplesmente fazer a dor desaparecer.
É ajudar você a entender seu corpo, recuperar sua capacidade de movimento e estar preparado para as demandas da sua rotina e do seu esporte.