Se você já sentiu dor persistente em um tendão seja no joelho, no ombro ou no tornozelo sabe como isso pode ser frustrante. Muitas pessoas tentam repouso, gelo ou até medicamentos, mas a dor insiste em voltar. A boa notícia é que a ciência evoluiu muito nos últimos anos e hoje entendemos melhor o que realmente acontece no corpo e, principalmente, como tratar de forma mais eficaz.
Durante muito tempo, acreditava-se que esse tipo de dor era apenas uma inflamação, chamada de “tendinite”. Porém, estudos mais recentes mostram que, na maioria dos casos crônicos, não há inflamação ativa. O que acontece, na verdade, é uma falha no processo de cicatrização do tendão.
Quando um tendão saudável sofre sobrecarga ou microlesões repetidas, o corpo tenta se reparar. Mas, em vez de reconstruir fibras fortes e organizadas, ele produz um tecido mais fraco e desorganizado. Isso faz com que o tendão perca sua capacidade de suportar esforço, tornando-se mais sensível e vulnerável.
Além disso, ocorre um fenômeno chamado neovascularização. Isso significa que pequenos vasos sanguíneos e nervos crescem em regiões onde normalmente não deveriam estar. Esses novos nervos são extremamente sensíveis e acabam sendo os principais responsáveis pela dor que você sente durante ou após atividades.
Mas a história não para por aí. Existe outro fator muito importante que influencia a dor e a recuperação: o sistema nervoso e o comportamento muscular.
Após uma lesão ou dor persistente, o corpo pode ativar um mecanismo de proteção chamado Inibição Muscular Artrogênica (IMA). Em termos simples, é como se o cérebro “desligasse parcialmente” um músculo para proteger a articulação afetada.
Isso explica por que muitas pessoas sentem que o músculo está fraco ou “não responde”, mesmo tentando treinar. Não é falta de esforço é um bloqueio neural real.
Ao mesmo tempo, ocorre algo que muitas vezes passa despercebido: a contratura muscular.
A contratura é quando o músculo permanece em um estado de tensão constante, como se estivesse sempre “ligado”, mesmo em repouso. Isso acontece como uma resposta de proteção do corpo diante da dor ou da instabilidade articular.
Ou seja, enquanto alguns músculos ficam inibidos (fracos e “desligados”), outros entram em excesso de ativação (rígidos e contraídos). Esse desequilíbrio cria um ambiente perfeito para a manutenção da dor.
Essa combinação de inibição muscular com contratura gera um ciclo difícil de quebrar:
– O músculo inibido não estabiliza corretamente a articulação
– O músculo em contratura tenta compensar, ficando sobrecarregado
– O tendão recebe cargas inadequadas
– A dor persiste ou até piora
Por isso, tratar apenas o tendão não é suficiente. É preciso abordar também essa falha de ativação muscular e o excesso de tensão presente nos músculos.
E é aqui que entra a reabilitação moderna e nossa metodologia Fortius.
Um dos pilares mais importantes do tratamento é o exercício excêntrico. Esse tipo de exercício acontece quando o músculo está se alongando enquanto faz força como ao descer lentamente em um agachamento ou ao baixar o calcanhar em um exercício de panturrilha.
Esse estímulo é essencial porque “ensina” o tendão a se reorganizar. Ele estimula a produção de colágeno mais forte, melhora a estrutura do tecido e aumenta a capacidade de suportar carga.
Além disso, o exercício excêntrico ajuda a reduzir aqueles vasos e nervos extras que causam dor. Com o tempo, o tendão se torna menos sensível e mais resistente.
Outro ponto importante é o uso de exercícios isométricos aqueles em que o músculo faz força sem se movimentar. Eles são ótimos para reduzir a dor rapidamente e ajudar na ativação muscular, principalmente em fases iniciais da reabilitação.
Mas antes de fortalecer, muitas vezes é necessário “preparar o terreno”.
É comum que músculos ao redor da área lesionada apresentem tensão excessiva, rigidez ou pontos dolorosos chamados de pontos gatilho que estão diretamente ligados às contraturas musculares.
Esses pontos aumentam a sobrecarga no tendão, limitam o movimento e mantêm o sistema nervoso em estado de alerta, reforçando ainda mais o bloqueio neuromuscular.
Para isso, técnicas como a liberação miofascial são muito eficazes. Elas ajudam a soltar essas tensões, reduzir as contraturas, melhorar a mobilidade e diminuir a pressão sobre o tendão.
Outra abordagem bastante utilizada é o dry needling (agulhamento a seco). Apesar do nome, é uma técnica segura e baseada em evidências, que utiliza agulhas finas para atingir diretamente os pontos de tensão muscular.
O objetivo não é causar dor, mas sim provocar um “reset” no músculo. Isso ajuda a reduzir a contratura, aliviar a dor e melhorar a ativação muscular especialmente em músculos que estavam ao mesmo tempo tensos e inibidos funcionalmente.
Além dessas técnicas, a estimulação elétrica também pode ser utilizada. Métodos como TENS (para alívio da dor) e EMS ou NMES (Eletroestimulação para ativação muscular) ajudam a “acordar” músculos que estão inibidos, facilitando o processo de fortalecimento e reequilíbrio muscular.
Outro fator essencial é o controle do inchaço articular. Quando há acúmulo de líquido em uma articulação, o sistema nervoso entende isso como um sinal de perigo e aumenta ainda mais a inibição muscular.
Por isso, reduzir esse inchaço quando presente é fundamental para permitir que o músculo volte a funcionar corretamente e para diminuir os padrões de contratura compensatória.
O grande segredo da recuperação está na combinação dessas estratégias.
Não existe uma solução única. O tratamento mais eficaz é aquele que integra:
– Controle da dor
– Redução de contraturas musculares
– Liberação de tensões e pontos gatilho
– Ativação neuromuscular
– Fortalecimento progressivo
Quando o corpo deixa de estar “travado” e passa a receber os estímulos corretos, ele consegue finalmente retomar o processo de recuperação.
É importante entender que a dor não significa necessariamente que algo está piorando. Muitas vezes, ela é apenas um sinal de que o tecido precisa ser reorganizado, o músculo precisa ser reativado e o excesso de tensão precisa ser liberado.
Com orientação adequada e progressão correta dos exercícios, é possível recuperar a função do tendão, reduzir a dor e voltar às atividades com segurança.
A reabilitação moderna não foca apenas em tratar sintomas, mas em resolver a causa do problema.
E isso muda completamente o resultado.
Se você convive com dor no tendão há semanas ou meses, saiba que existe solução mas ela passa por entender o corpo como um todo, e não apenas o local da dor.
Recuperar um tendão é, acima de tudo, reequilibrar o sistema muscular, reeducar o movimento, fortalecer com estratégia e “destravar” o sistema nervoso.
E quando isso acontece, o corpo responde e a dor deixa de ser parte da sua rotina.
O Movimento Cura!
Referências Bibliográficas
- Alfredson H, Pietilä T, Jonsson P, Lorentzon R. Heavy-load eccentric calf muscle training for the treatment of chronic Achilles tendinosis. American Journal of Sports Medicine. 1998.
- Cook JL, Purdam CR. Is tendon pathology a continuum? A pathology model to explain the clinical presentation of load-induced tendinopathy. British Journal of Sports Medicine. 2009.
- Rio E, Kidgell D, Purdam C, et al. Isometric exercise induces analgesia and reduces inhibition in patellar tendinopathy. British Journal of Sports Medicine. 2015.
- Hall M, Weir A, et al. The role of neural inhibition in muscle weakness following joint injury. Journal of Electromyography and Kinesiology.
- Hopkins JT, Ingersoll CD. Arthrogenic muscle inhibition: a limiting factor in joint rehabilitation. Journal of Sport Rehabilitation. 2000.
- Simons DG, Travell JG, Simons LS. Myofascial Pain and Dysfunction: The Trigger Point Manual.
- Dommerholt J, Fernández-de-las-Peñas C. Trigger point dry needling: an evidence and clinical-based approach.
- Kubo K, Kanehisa H, Fukunaga T. Effects of resistance and stretching training on tendon properties. Journal of Applied Physiology.
- Khan KM, Cook JL, Kannus P, et al. Time to abandon the “tendinitis” myth. BMJ. 2002.
- McKeon PO, Ingersoll CD. Neuromuscular control and rehabilitation of the ankle. Journal of Athletic Training.