Segurança e Prevenção: Guia para Evitar a Rabdomiólise no Uso de WB-EMS no Pós-Parto

Vinicius Machado

A Eletroestimulação Muscular de Corpo Inteiro (WB-EMS) vem ganhando cada vez mais espaço na reabilitação e no condicionamento físico de mulheres no pós-parto. Sua capacidade de ativar simultaneamente diversos grupos musculares permite sessões curtas e altamente eficientes, tornando-se uma excelente alternativa para quem dispõe de pouco tempo e busca recuperar força, estabilidade e condicionamento.

Entretanto, assim como qualquer método de treinamento, a WB-EMS deve ser aplicada de forma responsável e baseada em evidências científicas. Quando utilizada de maneira inadequada, especialmente com intensidades excessivas nas primeiras sessões, existe o risco de uma condição rara, porém grave, chamada rabdomiólise.

O que é a rabdomiólise?

A rabdomiólise é uma condição caracterizada pela ruptura das fibras musculares, fazendo com que componentes internos das células, principalmente a mioglobina, sejam liberados na corrente sanguínea.

Quando ocorre em grande quantidade, essa substância pode sobrecarregar os rins e, nos casos mais graves, levar à insuficiência renal aguda.

Embora seja um evento incomum, a literatura demonstra que ele pode ocorrer quando há exposição a exercícios extremamente intensos sem um período adequado de adaptação. Na WB-EMS, isso pode acontecer quando o equipamento é utilizado com cargas muito elevadas logo nas primeiras sessões.

No pós-parto, esse cuidado torna-se ainda mais importante, pois o organismo feminino ainda está passando por um processo natural de recuperação metabólica, hormonal e muscular.


O período de adaptação é indispensável

O principal fator de prevenção da rabdomiólise é respeitar o período de familiarização.

As diretrizes internacionais recomendam que toda pessoa seja considerada iniciante na WB-EMS, independentemente do histórico esportivo anterior. Isso significa que uma mulher que praticava atividade física antes da gestação também deve reiniciar o treinamento de forma gradual.

Durante as primeiras semanas, o objetivo não é alcançar o máximo de intensidade, mas permitir que o tecido muscular desenvolva adaptações fisiológicas capazes de tolerar estímulos maiores no futuro.

As recomendações atuais sugerem:

  • Manter intensidade moderada nas primeiras 8 a 10 semanas.
  • Trabalhar aproximadamente no nível 4 da Escala Borg CR10, descrito como “um pouco forte”.
  • Realizar apenas uma sessão semanal de aproximadamente 20 minutos durante esse período.

Essa estratégia reduz significativamente o aumento exagerado da creatina quinase (CK), um dos principais marcadores de lesão muscular.


O controle da intensidade é a principal ferramenta de segurança

Ao contrário do que muitos imaginam, sentir uma contração extremamente intensa não significa um treinamento melhor.

Durante uma sessão de WB-EMS, a intensidade deve ser monitorada constantemente pelo profissional responsável.

A Escala Borg CR10 é considerada o método mais seguro para controlar o esforço percebido. O treinador deve questionar regularmente como a participante percebe a intensidade de cada grupo muscular estimulado, ajustando individualmente cada eletrodo sempre que necessário.

Buscar contrações máximas ou manter o músculo em um estado contínuo de tensão intensa (“travado”) não faz parte de um protocolo seguro.

Somente após aproximadamente 10 sessões de adaptação recomenda-se uma progressão gradual para intensidades mais elevadas, geralmente entre os níveis 7 e 8 da Escala Borg, respeitando sempre a resposta individual de cada paciente.


Hidratação e alimentação também fazem parte da prevenção

A WB-EMS produz um importante estresse metabólico.

Por isso, preparar o organismo antes da sessão auxilia tanto no desempenho quanto na recuperação muscular.

As recomendações incluem:

Hidratação

  • Consumir entre 250 e 500 ml de água cerca de 30 minutos antes do treinamento.
  • Repetir essa mesma quantidade logo após o término da sessão.

Uma boa hidratação favorece a eliminação dos metabólitos produzidos pelo exercício e auxilia na proteção da função renal.

Alimentação

Também é indicado realizar uma refeição leve aproximadamente duas horas antes da sessão.

Um lanche contendo cerca de 250 kcal, com predominância de carboidratos, ajuda a evitar episódios de hipoglicemia, tonturas e queda do rendimento durante o exercício.


A importância da supervisão profissional

Entre todos os fatores de segurança, nenhum é tão importante quanto a presença de um profissional capacitado.

A literatura científica recomenda que mulheres no pós-parto, pacientes em reabilitação ou indivíduos com condições clínicas sejam acompanhados em um modelo de supervisão individual (1:1).

Esse acompanhamento permite:

  • Ajustar a intensidade em tempo real.
  • Monitorar sinais de desconforto.
  • Corrigir possíveis erros durante os exercícios.
  • Garantir uma progressão segura.

Antes mesmo da primeira sessão, também deve ser realizada uma anamnese completa, identificando possíveis contraindicações, doenças pré-existentes e uso de medicamentos que possam aumentar o risco de lesão muscular, como algumas estatinas e determinados antidepressivos.


Atenção aos sinais de alerta

Após a sessão, é esperado algum desconforto muscular semelhante ao de qualquer treinamento de força.

Entretanto, alguns sintomas exigem atenção imediata.

Procure avaliação médica caso ocorram:

  • dor muscular extremamente intensa e persistente;
  • fraqueza incapacitante;
  • fadiga excessiva;
  • inchaço importante;
  • urina escura, semelhante à cor de refrigerante tipo cola.

Esses sinais podem indicar uma lesão muscular significativa e necessitam de investigação.


O descanso também faz parte do tratamento

A recuperação muscular é um componente essencial da WB-EMS.

Após a fase inicial de adaptação, quando forem utilizadas intensidades mais elevadas, recomenda-se manter um intervalo mínimo de quatro dias entre sessões intensas, permitindo que o músculo complete seu processo fisiológico de regeneração.

Mais treinamento nem sempre significa melhores resultados.

Na WB-EMS, respeitar os períodos de recuperação é tão importante quanto realizar o exercício.


Conclusão

A WB-EMS representa uma ferramenta extremamente eficiente para a recuperação física no pós-parto quando aplicada de forma correta e baseada em evidências científicas.

O risco de rabdomiólise é baixo quando protocolos de segurança são respeitados, incluindo adaptação progressiva, controle adequado da intensidade, hidratação, alimentação apropriada, períodos suficientes de recuperação e supervisão profissional qualificada.

Mais do que buscar resultados rápidos, o objetivo deve ser promover uma recuperação segura, eficiente e sustentável, permitindo que a mulher recupere sua força, estabilidade e qualidade de vida com tranquilidade.


Referências Bibliográficas

  • BUONSENSO, A. et al. Acute Effects of Combining Whole-Body Electromyostimulation with Resistance Training in Active Women. Journal of Functional Morphology and Kinesiology, v. 9, n. 10, 2024.
  • ESPINDOLA, A. S.; RIBEIRO, J. L. Efeitos do treinamento de eletroestimulação neuromuscular de corpo inteiro para a melhora da saúde ao rendimento esportivo: uma revisão. Arquivos em Movimento, v. 19, n. 1, p. 371–391, 2023.
  • JEE, Y. S. The efficacy and safety of whole-body electromyostimulation in applying to human body: based from graded exercise test. Journal of Exercise Rehabilitation, v. 14, n. 1, p. 49–57, 2018.
  • KEMMLER, W. et al. Position statement and updated international guideline for safe and effective whole-body electromyostimulation training – the need for common sense in WB-EMS application. Frontiers in Physiology, v. 14, 1174103, 2023.
  • LEE, M. C. et al. Effect of 8-week frequency-specific electrical muscle stimulation combined with resistance exercise training on muscle mass, strength, and body composition. PeerJ, 11:e16303, 2023.
  • STÖLLBERGER, C.; FINSTERER, J. Side effects of and contraindications for whole-body electro-myo-stimulation: a viewpoint. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, v. 5, e000619, 2019.
  • TESCHLER, M. et al. (Very) high creatine kinase (CK) levels after WB-EMS: Are there implications for health? International Journal of Clinical and Experimental Medicine, v. 9, n. 11, p. 22841–22850, 2016.

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