A Eletroestimulação Muscular de Corpo Inteiro (WB-EMS) vem ganhando cada vez mais espaço na reabilitação e no condicionamento físico de mulheres no pós-parto. Sua capacidade de ativar simultaneamente diversos grupos musculares permite sessões curtas e altamente eficientes, tornando-se uma excelente alternativa para quem dispõe de pouco tempo e busca recuperar força, estabilidade e condicionamento.
Entretanto, assim como qualquer método de treinamento, a WB-EMS deve ser aplicada de forma responsável e baseada em evidências científicas. Quando utilizada de maneira inadequada, especialmente com intensidades excessivas nas primeiras sessões, existe o risco de uma condição rara, porém grave, chamada rabdomiólise.
O que é a rabdomiólise?
A rabdomiólise é uma condição caracterizada pela ruptura das fibras musculares, fazendo com que componentes internos das células, principalmente a mioglobina, sejam liberados na corrente sanguínea.
Quando ocorre em grande quantidade, essa substância pode sobrecarregar os rins e, nos casos mais graves, levar à insuficiência renal aguda.
Embora seja um evento incomum, a literatura demonstra que ele pode ocorrer quando há exposição a exercícios extremamente intensos sem um período adequado de adaptação. Na WB-EMS, isso pode acontecer quando o equipamento é utilizado com cargas muito elevadas logo nas primeiras sessões.
No pós-parto, esse cuidado torna-se ainda mais importante, pois o organismo feminino ainda está passando por um processo natural de recuperação metabólica, hormonal e muscular.
O período de adaptação é indispensável
O principal fator de prevenção da rabdomiólise é respeitar o período de familiarização.
As diretrizes internacionais recomendam que toda pessoa seja considerada iniciante na WB-EMS, independentemente do histórico esportivo anterior. Isso significa que uma mulher que praticava atividade física antes da gestação também deve reiniciar o treinamento de forma gradual.
Durante as primeiras semanas, o objetivo não é alcançar o máximo de intensidade, mas permitir que o tecido muscular desenvolva adaptações fisiológicas capazes de tolerar estímulos maiores no futuro.
As recomendações atuais sugerem:
- Manter intensidade moderada nas primeiras 8 a 10 semanas.
- Trabalhar aproximadamente no nível 4 da Escala Borg CR10, descrito como “um pouco forte”.
- Realizar apenas uma sessão semanal de aproximadamente 20 minutos durante esse período.
Essa estratégia reduz significativamente o aumento exagerado da creatina quinase (CK), um dos principais marcadores de lesão muscular.
O controle da intensidade é a principal ferramenta de segurança
Ao contrário do que muitos imaginam, sentir uma contração extremamente intensa não significa um treinamento melhor.
Durante uma sessão de WB-EMS, a intensidade deve ser monitorada constantemente pelo profissional responsável.
A Escala Borg CR10 é considerada o método mais seguro para controlar o esforço percebido. O treinador deve questionar regularmente como a participante percebe a intensidade de cada grupo muscular estimulado, ajustando individualmente cada eletrodo sempre que necessário.
Buscar contrações máximas ou manter o músculo em um estado contínuo de tensão intensa (“travado”) não faz parte de um protocolo seguro.
Somente após aproximadamente 10 sessões de adaptação recomenda-se uma progressão gradual para intensidades mais elevadas, geralmente entre os níveis 7 e 8 da Escala Borg, respeitando sempre a resposta individual de cada paciente.
Hidratação e alimentação também fazem parte da prevenção
A WB-EMS produz um importante estresse metabólico.
Por isso, preparar o organismo antes da sessão auxilia tanto no desempenho quanto na recuperação muscular.
As recomendações incluem:
Hidratação
- Consumir entre 250 e 500 ml de água cerca de 30 minutos antes do treinamento.
- Repetir essa mesma quantidade logo após o término da sessão.
Uma boa hidratação favorece a eliminação dos metabólitos produzidos pelo exercício e auxilia na proteção da função renal.
Alimentação
Também é indicado realizar uma refeição leve aproximadamente duas horas antes da sessão.
Um lanche contendo cerca de 250 kcal, com predominância de carboidratos, ajuda a evitar episódios de hipoglicemia, tonturas e queda do rendimento durante o exercício.
A importância da supervisão profissional
Entre todos os fatores de segurança, nenhum é tão importante quanto a presença de um profissional capacitado.
A literatura científica recomenda que mulheres no pós-parto, pacientes em reabilitação ou indivíduos com condições clínicas sejam acompanhados em um modelo de supervisão individual (1:1).
Esse acompanhamento permite:
- Ajustar a intensidade em tempo real.
- Monitorar sinais de desconforto.
- Corrigir possíveis erros durante os exercícios.
- Garantir uma progressão segura.
Antes mesmo da primeira sessão, também deve ser realizada uma anamnese completa, identificando possíveis contraindicações, doenças pré-existentes e uso de medicamentos que possam aumentar o risco de lesão muscular, como algumas estatinas e determinados antidepressivos.
Atenção aos sinais de alerta
Após a sessão, é esperado algum desconforto muscular semelhante ao de qualquer treinamento de força.
Entretanto, alguns sintomas exigem atenção imediata.
Procure avaliação médica caso ocorram:
- dor muscular extremamente intensa e persistente;
- fraqueza incapacitante;
- fadiga excessiva;
- inchaço importante;
- urina escura, semelhante à cor de refrigerante tipo cola.
Esses sinais podem indicar uma lesão muscular significativa e necessitam de investigação.
O descanso também faz parte do tratamento
A recuperação muscular é um componente essencial da WB-EMS.
Após a fase inicial de adaptação, quando forem utilizadas intensidades mais elevadas, recomenda-se manter um intervalo mínimo de quatro dias entre sessões intensas, permitindo que o músculo complete seu processo fisiológico de regeneração.
Mais treinamento nem sempre significa melhores resultados.
Na WB-EMS, respeitar os períodos de recuperação é tão importante quanto realizar o exercício.
Conclusão
A WB-EMS representa uma ferramenta extremamente eficiente para a recuperação física no pós-parto quando aplicada de forma correta e baseada em evidências científicas.
O risco de rabdomiólise é baixo quando protocolos de segurança são respeitados, incluindo adaptação progressiva, controle adequado da intensidade, hidratação, alimentação apropriada, períodos suficientes de recuperação e supervisão profissional qualificada.
Mais do que buscar resultados rápidos, o objetivo deve ser promover uma recuperação segura, eficiente e sustentável, permitindo que a mulher recupere sua força, estabilidade e qualidade de vida com tranquilidade.
Referências Bibliográficas
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