Eu recebo frequentemente pacientes com diagnósticos de tendinite patelar, tendinose patelar ou simplesmente “dor no tendão do joelho” que já passaram por diversos tratamentos. Muitos fizeram repouso prolongado, utilizaram anti-inflamatórios, aplicaram gelo, realizaram sessões de fisioterapia convencional e, mesmo assim, continuam sentindo dor ao correr, saltar, subir escadas ou treinar.
Na maioria dessas situações, o problema não está relacionado apenas à inflamação. Na verdade, muitos desses pacientes apresentam uma condição chamada tendinopatia patelar, um processo mais complexo que envolve alterações estruturais do tendão e redução da sua capacidade de suportar carga.
Dentro de um programa de reabilitação baseado em evidências, uma das ferramentas que utilizamos na Clínica Fortius é a Eletrólise Percutânea Intratissular (EPI®), uma técnica que busca estimular mecanismos biológicos de reparação do tecido lesionado.
O Que é a Tendinopatia Patelar?
A tendinopatia patelar é uma condição caracterizada por dor localizada na região inferior da patela, diminuição da capacidade funcional e redução da tolerância às cargas mecânicas.
É muito comum em praticantes de esportes que envolvem saltos, corridas e mudanças rápidas de direção, motivo pelo qual também é conhecida como “joelho do saltador”.
Durante muitos anos acreditou-se que esses quadros eram causados exclusivamente por inflamação, o que levou ao uso do termo “tendinite”. Entretanto, estudos demonstraram que a maioria dos casos crônicos apresenta predominantemente alterações degenerativas da matriz extracelular, com pouca evidência de um processo inflamatório clássico.
Por esse motivo, atualmente o termo tendinopatia é considerado mais adequado.
O Que Acontece com o Tendão?
Em um tendão saudável, as fibras de colágeno tipo I encontram-se organizadas paralelamente, permitindo que o tecido suporte elevadas cargas de tração.
Na tendinopatia, ocorre uma desorganização progressiva dessa estrutura. O colágeno tipo I é gradualmente substituído pelo colágeno tipo III, que apresenta menor resistência mecânica e disposição menos organizada.
Além disso, observa-se:
- Alteração da atividade dos tenócitos;
- Aumento de proteoglicanos e conteúdo hídrico;
- Espessamento do tendão;
- Neovascularização;
- Crescimento de fibras nervosas no interior do tecido;
- Redução da capacidade de armazenamento e liberação de energia.
Essas alterações tornam o tendão menos eficiente e mais suscetível à dor e à incapacidade funcional.
Por Que a Tendinopatia se Desenvolve?
A tendinopatia é considerada uma condição multifatorial.
Na maioria dos casos, existe um desequilíbrio entre a carga aplicada e a capacidade do tendão de se adaptar a essa carga.
Entre os fatores mais frequentemente associados estão:
- Aumento súbito de volume ou intensidade de treino;
- Excesso de saltos e corridas repetitivas;
- Falta de recuperação adequada entre estímulos;
- Déficits de força muscular;
- Alterações biomecânicas;
- Diabetes;
- Obesidade;
- Uso de fluoroquinolonas;
- Uso repetido de corticosteroides.
Em termos simples, a tendinopatia surge quando a demanda mecânica supera a capacidade biológica de adaptação do tecido.
O Que é a EPI?
A Eletrólise Percutânea Intratissular (EPI®) é uma técnica minimamente invasiva utilizada no tratamento de diversas lesões musculoesqueléticas, especialmente tendinopatias crônicas.
O procedimento consiste na aplicação de uma corrente galvânica de baixa intensidade através de uma agulha fina inserida na região lesionada.
Embora muitas pessoas associem o tratamento apenas ao uso da agulha, o principal diferencial da técnica é justamente a corrente elétrica aplicada ao tecido.
O objetivo não é simplesmente aliviar a dor, mas estimular uma resposta biológica controlada capaz de favorecer os mecanismos naturais de reparação tecidual.
Como a EPI Atua no Tendão?
Em tendinopatias crônicas, o tecido frequentemente apresenta baixa atividade metabólica e dificuldade de remodelação.
A aplicação da corrente galvânica produz uma reação eletroquímica local que estimula processos biológicos relacionados ao reparo tecidual.
Estudos experimentais demonstraram aumento da expressão de fatores associados à regeneração, angiogênese e remodelação da matriz extracelular após a aplicação da técnica.
Na prática clínica, isso significa criar um ambiente mais favorável para que o organismo remova tecido degenerado e inicie um processo de reconstrução mais eficiente.
O Que Diz a Ciência?
Um estudo clínico randomizado publicado no Journal of Orthopaedic Surgery and Research avaliou pacientes com tendinopatia patelar tratados com exercícios excêntricos associados à EPI® e comparou os resultados com um grupo submetido a modalidades convencionais de eletrofisioterapia.
Os autores observaram melhora significativa da dor e da função no grupo tratado com EPI®, sugerindo que a técnica pode representar uma ferramenta útil dentro da reabilitação da tendinopatia patelar.
Os resultados reforçam um conceito importante: a recuperação do tendão não depende apenas da redução dos sintomas, mas também da estimulação adequada dos mecanismos biológicos de reparação.
EPI ou Exercícios?
A resposta correta é: EPI e exercícios.
O maior erro é acreditar que qualquer técnica passiva, por melhor que seja, conseguirá restaurar sozinha a capacidade funcional do tendão.
Os tendões se adaptam à carga.
Por isso, após o controle da dor e a melhora da capacidade tecidual, é fundamental que o paciente seja submetido a um programa estruturado de fortalecimento progressivo.
A literatura científica demonstra consistentemente que a carga progressiva continua sendo o principal estímulo para reorganização do colágeno e recuperação da capacidade mecânica do tendão.
A EPI atua como uma ferramenta complementar capaz de potencializar esse processo.
Como Utilizamos a EPI na Clínica Fortius?
Na Clínica Fortius, a EPI não é utilizada como tratamento isolado.
Cada paciente passa por uma avaliação detalhada para identificar fatores relacionados à sobrecarga, déficits de força, limitações de mobilidade e alterações do controle motor.
A partir dessa análise, elaboramos um plano individualizado que combina:
- Controle adequado da carga;
- Exercícios terapêuticos progressivos;
- Fortalecimento muscular;
- Educação do paciente;
- Estratégias de retorno ao esporte;
- Recursos complementares, como a EPI®, quando indicados.
Nosso objetivo não é apenas reduzir a dor, mas devolver ao tendão sua capacidade de suportar carga com segurança e eficiência.
Conclusão
A tendinopatia patelar é uma condição complexa que vai muito além da simples inflamação. Trata-se de uma alteração estrutural e funcional do tendão, geralmente relacionada a um desequilíbrio entre demanda mecânica e capacidade de adaptação do tecido.
A Eletrólise Percutânea Intratissular (EPI®) surge como uma ferramenta promissora para estimular mecanismos biológicos de reparação e auxiliar no processo de recuperação. Entretanto, os melhores resultados são obtidos quando a técnica é integrada a um programa completo de reabilitação baseado em carga progressiva.
Mais importante do que eliminar a dor é restaurar a capacidade do tendão de responder adequadamente às demandas do dia a dia, do esporte e da vida.