O agulhamento seco é uma das técnicas que mais utilizo na prática clínica. Não porque esteja “na moda”, mas porque existe um número crescente de estudos demonstrando seus efeitos sobre a dor, a função muscular e o sistema nervoso.
Ao longo dos anos, muita gente acreditou que o agulhamento seco funcionava apenas por “desfazer um nó muscular”. Hoje sabemos que essa explicação é simplista. Os benefícios da técnica vão muito além disso e envolvem uma complexa resposta neurofisiológica.
Quando uma agulha é introduzida em um ponto gatilho miofascial ou em um tecido muscular sensibilizado, ocorre uma série de alterações bioquímicas locais. Diversos estudos demonstram redução de substâncias associadas à dor, como a substância P e o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP). Esses neuropeptídeos participam da sensibilização periférica, favorecendo a inflamação neurogênica e tornando os receptores de dor excessivamente sensíveis.
Com a redução desses mediadores inflamatórios, o limiar de ativação dos nociceptores tende a voltar ao normal. Em outras palavras, estímulos que antes eram suficientes para provocar dor deixam de desencadear essa resposta de forma exagerada.
Outro mecanismo importante acontece na junção neuromuscular. Pacientes com pontos gatilho frequentemente apresentam aumento da liberação de acetilcolina na placa motora, mantendo determinadas fibras musculares em contração constante. O agulhamento seco parece reduzir essa liberação excessiva de acetilcolina e favorecer a ação da acetilcolinesterase, enzima responsável por degradá-la.
Na prática, isso ajuda a interromper a atividade elétrica anormal presente na placa motora, diminuindo a contração involuntária das fibras musculares e contribuindo para a resolução do ponto gatilho.
Além dos efeitos locais, pesquisas recentes mostram que o agulhamento seco também produz efeitos no sistema nervoso central. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 demonstrou que a técnica promove importantes respostas neurofisiológicas, incluindo modulação da dor, alterações na excitabilidade neural e melhora dos mecanismos de inibição descendente da dor. Isso reforça que seus efeitos não acontecem apenas onde a agulha é inserida, mas também na forma como o cérebro e a medula espinhal processam os estímulos dolorosos.
É justamente por isso que o agulhamento seco não deve ser visto como um tratamento isolado. Ele funciona como uma ferramenta capaz de reduzir a dor, melhorar a função muscular e criar uma condição mais favorável para que o paciente realize exercícios terapêuticos, recupere movimentos e volte às suas atividades com maior qualidade.
Na Clínica Fortius, utilizo o agulhamento seco sempre dentro de um raciocínio clínico. A técnica não é indicada para todos os pacientes nem para todas as dores. Antes da aplicação, realizamos uma avaliação detalhada para identificar a verdadeira origem dos sintomas e definir se o agulhamento fará parte da estratégia terapêutica.
Mais do que “colocar agulhas”, o objetivo é utilizar uma ferramenta baseada em evidências científicas para reduzir a dor, restaurar a função e acelerar a recuperação do paciente.
Referências
Rabanal-Rodríguez G, et al. Neurophysiological Effects of Dry Needling: A Systematic Review and Meta-analysis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2026.
Dommerholt J, Fernández-de-las-Peñas C. Trigger Point Dry Needling: An Evidence and Clinical-Based Approach. PMCID: PMC4616107.