Entenda as diferenças entre as abordagens fisioterapêuticas, o papel do RPG e quais tratamentos apresentam maior respaldo científico para a escoliose.
A escoliose é uma condição que frequentemente chega aos consultórios de fisioterapia acompanhada de uma indicação bastante conhecida: RPG (Reeducação Postural Global).
Na prática clínica, tenho recebido pacientes que procuram atendimento especificamente para realizar RPG, muitas vezes por indicação médica, com a expectativa de corrigir a curvatura da coluna.
Mas será que o RPG é realmente o melhor tratamento para a escoliose? Existem evidências científicas de que essa abordagem consegue corrigir uma deformidade estrutural da coluna? E quais métodos apresentam melhores resultados?
Essas são perguntas importantes, especialmente porque precisamos diferenciar a melhora da postura, da mobilidade e do controle muscular da efetiva correção de uma deformidade estrutural.
Neste artigo, vamos discutir o que a literatura científica apresenta sobre o assunto e como podemos utilizar essas informações para tomar decisões clínicas mais adequadas.
Primeiro, precisamos entender o que é escoliose
A escoliose é uma deformidade tridimensional da coluna vertebral, caracterizada por uma curvatura no plano coronal, associada à rotação vertebral e, frequentemente, a alterações nos planos sagital e axial.
Radiograficamente, considera-se escoliose uma curva com ângulo de Cobb igual ou superior a 10°.
Entretanto, nem toda assimetria postural representa uma escoliose estrutural.
É importante diferenciar:
Escoliose estrutural: apresenta deformidade tridimensional, com rotação vertebral e alterações que não desaparecem simplesmente com mudanças de posição ou correções voluntárias.
Assimetria ou atitude escoliótica funcional: pode apresentar uma curvatura associada a fatores como diferenças de posicionamento, alterações musculares, dor ou discrepância funcional dos membros inferiores, sem necessariamente existir uma deformidade vertebral estrutural.
Essa distinção é fundamental porque a abordagem terapêutica e os objetivos do tratamento podem ser bastante diferentes.
Não podemos utilizar a mesma estratégia para um paciente com uma assimetria postural flexível e para outro com uma escoliose estrutural estabelecida.
RPG e escoliose: o que dizem os estudos?
O RPG é uma abordagem fisioterapêutica que utiliza posturas terapêuticas, alongamento ativo, controle respiratório e organização das cadeias musculares.
Sua proposta é melhorar a relação entre os diferentes segmentos corporais, trabalhando mobilidade, flexibilidade e percepção postural.
Esses recursos podem ser úteis em determinadas condições musculoesqueléticas. Entretanto, quando falamos especificamente de escoliose estrutural, precisamos analisar com cuidado as evidências.
Um estudo brasileiro publicado em 2011 por Toledo e colaboradores, na revista Fisioterapia e Pesquisa, avaliou os efeitos do RPG em escolares com alterações escolióticas.
Os autores observaram redução significativa do ângulo de Cobb no grupo submetido ao RPG após 12 semanas de intervenção.
À primeira vista, esse resultado parece bastante favorável.
Entretanto, existe uma particularidade importante: os participantes apresentavam escoliose torácica não estrutural e teste de Adams negativo.
Portanto, não estamos falando de uma população representativa de pacientes com escoliose idiopática estrutural.
Além disso, o estudo apresentou uma amostra pequena e um período de acompanhamento limitado.
Isso significa que seus resultados não podem ser extrapolados para afirmar que o RPG consegue corrigir uma deformidade estrutural da coluna ou impedir sua progressão.
Até o momento, não existe evidência científica robusta demonstrando que o RPG seja superior a outros métodos fisioterapêuticos no tratamento da escoliose estrutural.
Isso não significa que o RPG não tenha utilidade clínica. Significa que precisamos compreender seus limites e não atribuir ao método resultados que ainda não foram demonstrados cientificamente.
Quais tratamentos apresentam maior respaldo científico?
Quando analisamos a literatura sobre o tratamento conservador da escoliose, encontramos uma abordagem denominada PSSE (Physiotherapeutic Scoliosis-Specific Exercises), ou exercícios fisioterapêuticos específicos para escoliose.
Esses métodos possuem características próprias e foram desenvolvidos considerando a natureza tridimensional da deformidade.
Entre os mais conhecidos estão:
1. Método Schroth
O método Schroth trabalha com exercícios específicos de autocorreção tridimensional, buscando melhorar a organização da coluna e do tronco.
Entre seus principais componentes estão:
- Autocorreção tridimensional da postura.
- Exercícios respiratórios direcionados, incluindo a respiração rotacional.
- Desrotação e expansão de regiões torácicas específicas.
- Estabilização da postura corrigida.
- Integração das correções nas atividades funcionais.
O Schroth está entre os métodos mais estudados para o tratamento conservador da escoliose idiopática do adolescente.
Os estudos apontam resultados favoráveis em relação ao ângulo de Cobb, à rotação do tronco e à qualidade de vida, embora ainda existam limitações na qualidade e na duração dos estudos.
2. Método SEAS
O SEAS (Scientific Exercises Approach to Scoliosis) é outra abordagem específica para escoliose.
Sua proposta utiliza a autocorreção ativa e o treinamento neuromotor para melhorar a capacidade do paciente de organizar e estabilizar sua postura.
Diferentemente de uma intervenção baseada exclusivamente em posturas passivas ou alongamentos, o SEAS busca desenvolver a capacidade de autocorreção e transferi-la para movimentos e atividades funcionais.
Também apresenta resultados favoráveis na literatura científica, especialmente quando aplicado de maneira individualizada.
3. Fortalecimento e exercícios gerais
O fortalecimento muscular também possui um papel importante no tratamento.
Precisamos lembrar que o paciente com escoliose não deve ser tratado como alguém que precisa apenas alongar determinadas cadeias musculares ou corrigir uma postura.
Força, resistência, capacidade funcional e tolerância às cargas são componentes fundamentais da saúde musculoesquelética.
Os exercícios gerais podem ser utilizados para melhorar essas capacidades, mas não substituem necessariamente os exercícios específicos de autocorreção tridimensional quando o objetivo é tratar a deformidade.
4. Colete ortopédico
Em adolescentes que ainda apresentam crescimento esquelético, o uso de colete pode ser indicado dependendo da magnitude da curva e do risco de progressão.
O estudo BrAIST, publicado em 2013 por Weinstein e colaboradores, demonstrou que o uso do colete reduziu significativamente o risco de progressão para curvas de 50° ou mais em adolescentes com escoliose idiopática e indicação para tratamento.
Esse é um ponto importante: em determinadas situações, a intervenção mais adequada não é simplesmente escolher um método de fisioterapia, mas integrar exercícios específicos, acompanhamento médico e uso de colete quando indicado.
O que dizem as revisões sistemáticas?
Uma revisão Cochrane publicada em 2024 por Romano e colaboradores avaliou os efeitos dos exercícios terapêuticos na escoliose idiopática do adolescente.
Os autores encontraram resultados promissores para algumas intervenções específicas, mas destacaram que a certeza da evidência ainda é limitada e que não é possível afirmar com segurança qual método de exercício é superior em todas as situações.
Outra metanálise, publicada em 2024 por Dong e colaboradores, analisou 17 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 857 participantes.
Os resultados apontaram benefícios dos exercícios específicos para escoliose em relação ao ângulo de Cobb, à rotação do tronco e à qualidade de vida.
Esses resultados reforçam a importância de utilizar abordagens desenvolvidas especificamente para as características tridimensionais da escoliose.
Entretanto, é importante evitar interpretações exageradas: apresentar resultados favoráveis não significa que esses métodos garantam a correção da deformidade ou impeçam a progressão em todos os pacientes.
A ciência ainda está evoluindo nessa área.
Afinal, devemos deixar de utilizar RPG na escoliose?
Não necessariamente.
O RPG pode ser utilizado como recurso complementar quando existem objetivos terapêuticos relacionados à mobilidade, flexibilidade, percepção corporal e conforto musculoesquelético.
Entretanto, precisamos ter clareza sobre o que estamos tratando.
Se o objetivo é melhorar uma restrição de mobilidade, trabalhar determinadas assimetrias ou contribuir para a melhora dos sintomas, o RPG pode fazer parte do planejamento terapêutico.
Mas se estamos diante de uma escoliose estrutural e o objetivo é trabalhar especificamente a deformidade tridimensional, existem métodos mais direcionados e com maior sustentação científica, como Schroth e SEAS.
Não devemos confundir melhora postural com correção estrutural.
Da mesma forma, não devemos afirmar que um método é superior apenas porque é mais conhecido, tradicional ou frequentemente indicado.
A escolha da intervenção precisa partir da avaliação do paciente, da compreensão do diagnóstico e dos objetivos terapêuticos.
O tratamento depende da idade e das características da escoliose
Outro aspecto fundamental é compreender que não existe uma única estratégia para todos os pacientes.
Em adolescentes, precisamos considerar o ângulo de Cobb, a maturidade esquelética e o potencial de crescimento, pois são fatores importantes para determinar o risco de progressão.
Em adultos, especialmente na escoliose degenerativa, os objetivos frequentemente estão mais relacionados à redução da dor, melhora da capacidade funcional, fortalecimento e manutenção da autonomia.
Nesses casos, não devemos criar expectativas irreais de correção estrutural por meio de exercícios.
A avaliação individualizada é indispensável para definir a melhor conduta e identificar quando existe necessidade de acompanhamento ortopédico.
Minha reflexão sobre o assunto
Na prática clínica, acredito que precisamos ter mais cuidado ao indicar tratamentos baseados exclusivamente no nome de um método.
O RPG, assim como o DNS, o Pilates e outras abordagens, possui princípios que podem contribuir para a reabilitação. Entretanto, nenhum método deve ser considerado uma solução universal.
Quando falamos de escoliose, precisamos entender que estamos diante de uma alteração tridimensional, que envolve componentes ósseos, articulares, musculares e neuromotores.
Por isso, considero fundamental que o fisioterapeuta saiba diferenciar uma assimetria funcional de uma escoliose estrutural, compreenda os mecanismos envolvidos e tenha conhecimento das abordagens específicas disponíveis.
Mais importante do que defender um método é saber quando, por que e para quem utilizá-lo.
A fisioterapia não deve ser orientada pela tradição de uma técnica, mas pela capacidade de integrar conhecimento científico, avaliação clínica e necessidades individuais do paciente.
Esse é o caminho para uma prática mais segura, responsável e baseada em evidências.
Referências científicas
- TOLEDO, P. C. V. et al. Efeitos da Reeducação Postural Global em escolares com escoliose. Fisioterapia e Pesquisa, 2011.
- NEGRINI, S. et al. 2016 SOSORT guidelines: Orthopaedic and rehabilitation treatment of idiopathic scoliosis during growth. Scoliosis and Spinal Disorders, 2018.
- ROMANO, M. et al. Therapeutic exercises for idiopathic scoliosis in adolescents. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024.
- DONG, Y. et al. Physiotherapeutic Scoliosis-Specific Exercise for the Treatment of Adolescent Idiopathic Scoliosis: A Systematic Review and Network Meta-analysis, 2024.
- WEINSTEIN, S. L. et al. Effects of bracing in adolescents with idiopathic scoliosis. New England Journal of Medicine, 2013.
- DONZELLI, S. et al. Revisão da comissão de cuidados abrangentes da Scoliosis Research Society sobre exercícios fisioterapêuticos específicos para escoliose, 2026.